Winona Ryder volta em filme de rotoscopia
July 7th, 2006 | Published in Movie Review, Portuguese
Winona Ryder, quem diria, não acabou no Irajá. Depois de uma temporada complicada, com prisões em lojas de grife em Los Angeles graças aos seus ataques de cleptomania, e depois de participar de alguns filmecos, a atriz retorna num grande projeto. Ufa! Já não era sem tempo.
O filme chama-se A Scanner Darkly, de 2006, e bem que poderia ser lançado como longa-metragem numa sessão adulta do Anima Mundi, graças à sua técnica primorosa de rotoscopia. Nele, a bela Winona não está na categoria de produtora, como em Garota, Interrompida ou em Adoráveis Mulheres (filmes que ela produziu pra ver se descolava uma indicação ao Oscar, o que não deu certo), e entre os produtores estão ninguém menos que os sócios e amigos Steven Soderbergh e George Clooney. A direção e o roteiro são de Richard Linklater (que também dirigiu e roteirizou Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, aqueles, com Julie Delpy e Ethan Hawke). A história é baseada em romance lançado sob o título de O Homem Duplo em 1977 e escrito por Philip K. Dick (autor de Blade Runner). Aqui, Winona Ryder trabalha apenas como atriz.
O filme foi bem recebido pelo público e a crítica americana, mesmo tendo uma apresentação da história considerada deficiente, a trama, ou a ausência dela. No entanto, é todo composto em rotoscopia, que é, em parcas palavras, a técnica de animação na qual os movimentos são primeiramente filmados com atores reais e depois transferidos, quadro-a-quadro, para a animação 2D (feita a lápis e arte-finalizada com pintura digital). A equipe de animadores é, pelo visto, primorosa. Basta uma olhada nas imagens do filme.
O interessante é observar que além de Winona Ryder (cujos pais foram hippies e que deram o nome Winona à filha por significar “primeiro filho nascido mulher”) e Keanu Reeves (de Matrix), o elenco de A Scanner Darkly conta com Woody Harrelson (Assassinos por Natureza) e o conhecido ator “junkie”, Robert Downey Jr. (de Chaplin e da série de TV Ally McBeal). Detalhe: Winona e Reeves já trabalharam juntos em Drácula de Bram Stoker, de Coppola, na época em que namoravam.
O personagem central é de Keanu Reeves. Ele interpreta Bob Arctor, um agente de narcóticos que vai atrás da fonte de produção e venda da letal “Substância D”. O “D” do nome da substância vem de “death” (morte) e compõe, portanto, a mais perigosa droga existente no mercado, conseguindo cancelar o link entre os hemisférios da mente, levando a um irreversível dano cerebral. Daí, a trajetória de Arctor ser tragicômica, pois ele mesmo é um dependente da Substância D. Ele vive tantas vidas a ponto de seus superiores, na polícia, não saberem como identificá-lo. Ora ele pode ser confundido como sendo Bob Arctor, traficante, ora como “Fred”, uma outra identidade do também agente do Narcóticos Bob Arctor. Enfim, só assistindo pra conferir. Se o filme tiver no mínimo a carga psicanalítica do livro homônimo de Philip K. Dick, já será um ganho.
A Scanner Darkly trata, entre outros temas, do consumo de drogas. Em relação às técnicas de filmagem, o filme se mostra cativante. Reside aí o seu diferencial. Nesse aspecto, ele é bem sucedido, permitindo à platéia compartilhar lampejos de paranóia e de desilusão dos personagens. O “blur” (ou seja, a tela embaçada) utilizado em boa parte do filme ajuda nessa atmosfera de desconexão, de confusão total provocada pela tal Substância D. Assim, consegue se enfatizar a caricatura bastante ácida e mórbida, repleta de diálogos que vão do surreal ao cômico entre pessoas cujas mentes se renderam a viagens alucinantes e alucinógenas. O trailer, na internet, é um show de imagens.
A crítica americana e mesmo os fóruns sobre A Scanner Darkly nos adiantam que, embora talentoso pela maneira de ser construído, o filme peca pela dificuldade de mostrar o conflito, de decolar a tensão, sem a qual é impossível assistir a qualquer coisa. Mesmo o mundo de paranóia e conspiração (o trailer enfatiza a idéia de que “qualquer ação sua pode ser gravada”, daí a idéia de scanner) fica inerte, porque essa experiência parece perdida no plot, na trama. O curioso é que Linklater faz isso, só que suavemente e tendo o romance como pano de fundo, em dois de seus filmes anteriores, aqueles dois que têm no elenco a dupla Julie Delpy e Ethan Hawke passeando pelas ruas de Viena e Paris.
Source: Bigorna.net
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